Dia do Ciclista: as histórias de quem tem a bike como ferramenta de trabalho.
- 19 de ago. de 2023
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O Dia Nacional do Ciclista, celebrado neste sábado (19), recorda uma morte ocorrida em 2006, quando Pedro Davison foi atropelado por um homem que conduzia embriagado e em alta velocidade em Brasília. Oficializada em 2018, a data lembra o respeito necessário ao ciclista para que casos assim não se repitam e é um momento para ressaltar as vantagens de usar a bicicleta em deslocamentos diários.
Para marcar a data, Reportagem conta as histórias do cicloviajante Frederico Oderich, 31 anos, e do atleta Eduardo Macedo, 35. O primeiro tem uma oficina no Centro Histórico de Porto Alegre e vende bicicletas em uma espécie de brique digital sem fronteiras. Em rede social, combina conteúdos bem-humorados sobre as bicicletas e reflexões sobre a vida de ciclista na cidade e em viagens.
Já Macedo é líder do ranking gaúcho de ciclismo de velocidade em sua categoria etária. Faz todos os deslocamentos internos em cima do instrumento de trabalho, usando veículos com motor apenas quando necessário.
Fred e Macedo são dois personagens nascidos na Capital que representam, cada um à sua maneira, ideais comuns entre a comunidade ciclista.

Em pouco tempo estava cruzando a cidade ou até mesmo pegando a estrada até o Litoral Norte, pedalando com apenas uma mochila nas costas e sem nenhum plano para vencer os quase cem quilômetros de freeway pelo acostamento. Em 2016, já estudante de Administração Pública na UFRGS, em uma viagem a Madri, na Espanha, para visitar a irmã, comprou uma bicicleta usada, acoplou um bagageiro e se pôs a pedalar pelo tempo que conseguisse no país europeu. O resultado foi uma experiência que revolucionou seu modo de enxergar o mundo.
— De carro ou ônibus pode até ser mais rápido, mas indo rápido às vezes perdemos coisas legais do caminho. Uma foto na estrada, algo assim. Pedalar é levar a casa junto contigo, igual uma tartaruga — compara.
— É uma viagem introspectiva e para curtir cada momento.
Fred conta, sorridente, que percorreu todo o litoral sul da Espanha, entre as fronteiras com a França e com Portugal, nos meses de verão. Quando voltou a Porto Alegre, já não era o mesmo. Mantinha a bicicleta como método de transporte urbano, mas queria ir mais longe.
Fez viagens ao interior do Estado e se continha para não empreender um mochilão pelo continente sul-americano. Explorou Estados do nordeste do Brasil pedalando, mirando em se mudar para Pernambuco para trabalhar com turismo.
No entanto, a bicicleta ainda era uma paixão. É preciso voltar até as publicações de 2018 no Instagram para encontrar fotos e vídeos em que a bicicleta não é o assunto principal. Naquele ano, ele já trabalhava como mecânico e vendedor em uma loja de departamento voltada para acessórios e vestimenta esportiva. O período rendeu aprendizados sobre manutenção de bicicletas e relacionamento com clientes.
Optou por deixar o emprego no ano seguinte. Seguia determinado a migrar para Pernambuco e queria juntar o dinheiro para isso trabalhando em um bar. Com a chegada da pandemia, as bicicletas de Fred e de vários outros amigos viraram alternativa de lazer em um cenário que desaconselhava interações físicas.
Thaís, amiga que dividia apartamento com ele na zona norte da Capital, foi a primeira cliente, ainda informalmente. Assim que a foto da Caloi 10 dela, restaurada por ele, foi parar na rede social, outros amigos começaram a querer o serviço de revisão para pedalar suas bicicletas até então abandonadas em casa.
Fred ainda não queria nem cobrar pela função, mas Thaís o convenceu a repetir os preços de uma mecânica do bairro. Foi o começo da trajetória que chegou, em 2023, aos três anos.
Pelas contas que ele faz, com base em anotações no celular, as ruas de Porto Alegre, Rio, São Paulo, Natal, Pernambuco, Belo Horizonte e outras cidades já foram pista para mais de mil bicicletas em que ele fez algum tipo de manutenção, personalização ou até mesmo construiu do zero para venda.
— Esta rotina chegou a ficar muito pesada. Hoje conto com um parceiro que me ajuda a vender as bicicletas em um perfil da rede social que não é o meu pessoal, o que libera mais tempo para eu me dedicar aos projetos autorais.
Em 2021, Frederico tentou se desfazer do estoque de bicicletas para partir em direção à sonhada mudança para Recife, mas uma única, um modelo vintage, com um cestinho junto ao guidão, teimava em não agradar nenhum cliente. A alternativa foi sorteá-la na rede social que era, até então, apenas de assuntos pessoais.
O resultado foi uma avalanche de novos seguidores — atualmente, mais de 20 mil — e um engajamento que ele nunca tinha visto. Conseguiu repassar a bicicleta, mas as visitas ao perfil impulsionaram a chegada de novos projetos.
— Nada é definitivo, todos estes planos que te conto aqui eram num ritmo de "vamos ver mais uns meses como vai ser", assim como foram os dois anos de pandemia. Quando vi que estava conseguindo mexer e vender uma bicicleta por semana, em média, percebi que isso podia ter futuro. E não só pelo dinheiro, mas por estar colocando bikes de que gosto na rua, com gente legal que redescobriu o pedal a partir do meu trabalho — celebra Fred.
Os anúncios do trabalho nas redes sociais são vídeos curtos, em formato de stories, em que ele mostra a bicicleta com a câmera do próprio celular. Em poucos segundos, ele mistura conhecimento técnico com referências populares e chama a atenção.

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