O reconhecimento facial nos estádios será a nova receita dos clubes.
- 27 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Até junho de 2025, todos os estádios com capacidade acima de 20 mil pessoas terão de contar em seus acessos com sistema de reconhecimento facial. Será obrigação. Está prevista na Lei Geral do Esporte, aprovada em 2023. Hoje, só o Allianz, do Palmeiras, e a Serrinha, de Goiânia, contam com essa tecnologia. O que parece uma simples adoção de "cara-crachá" nos estádios, no fundo, representa a abertura de um portal de oportunidades de novas receitas aos clubes. O futebol brasileiro, por uma lei que mira a segurança, ingressará na era do "fã engagement".
O que significa isso? Significa que o clube terá, em suas mãos, os dados de cada um dos torcedores que estiverem dentro do seu estádio. Para assistir ao jogo, o fã precisará se registrar e preencher um cadastro. Que pode ir além dos dados básicos e avançar para um questionário de hábitos no dia da partida e preferências que podem ir do cardápio ao jogador preferido, por exemplo. Esse é o ponto de partida de uma jornada que poderá se refinar ao ponto de receber um atendimento individualizado. Sim, isso será possível mesmo que você esteja em um estádio com mais 50 mil pessoas.
É nessa personalização do fã que está a mina de ouro dos clubes, uma nova receita pronta para ser explorada. Os norte-americanos, craques na gestão de eventos esportivos, já fazem isso há um bom tempo. Os europeus começaram mais recentemente e começam a contar os lucros. O Real Madrid, há menos de dois meses, instalou um sistema de captação de dados e reconhecimento facial em seus acessos. Um espanhol buscou no Canadá a tecnologia usada por empresas aéreas e aeroportos do Oriente Médio e começou a comercializar por aqui. O Oriente Médio, sabemos, adota um rigor extremo nessas áreas pelo sempre iminente risco de terrorismo. Aliás, essa questão também move as medidas de segurança nas arenas dos grandes europeus.
Mas voltamos à personalização. Sabendo quem está em seu estádio, o clube terá seus dados e algumas informações de largada. Todas registradas pelo fã em um aplicativo, que concentrará toda a sua jornada para o jogo. Desde a confirmação da presença nele até o momento em que ele pisar em casa, de volta. Com o auxílio de algoritmos e da inteligência artificial, essa experiência toda será mapeada e permitirá ao clube entender todos os hábitos do torcedor antes, durante e depois da partida. É aqui que se abre o portal do fã engagement.
Entenda como funciona
Vamos a um exemplo básico dessa conexão. Você, em uma quinta-feira, confirma a presença no jogo de domingo. A partir daí, o app do clube começa a abastecê-lo de forma ainda mais recorrente de informações da preparação do time. A previsão do tempo indica sol e temperatura na casa dos 12ºC na hora da partida. Não por coincidência, o agasalho oficial do time acaba de entrar em promoção, com 10% de desconto. No sábado, o jogador que você colocou lá no cadastro como seu preferido, olha só, te envia uma mensagem avisando que te espera no domingo. E que a nova camisa está na loja e, só para você, a personalização sai na faixa. O app também avisa que, se comprar o tíquete no estacionamento do estádio antecipado, além de garantir lugar, evita o estresse.
Chega o domingo. Quando você acorda, seu celular apita uma mensagem. É o app do clube, avisando que hoje é o dia e que faltam x horas para a partida. Além disso, aquele restaurante que costuma frequentar nos domingos, só para você, oferece um desconto se chegar antes do meio-dia. A caminho do estádio, a escalação do time e as estatísticas contra esse adversário apitam no seu celular. Assim como a dica para que evite o caminho de sempre, ele está congestionado. Quem sabe, você pega aquela paralela?
Você chegou. Seu celular, ao passar na cancela do estacionamento, avisou o sistema todo. O sistema de mensagens do app avisa que o portão x, no qual você sempre entra, está sem filas. Quem sabe aproveita para entrar com tranquilidade no estádio, com uma hora de antecedência, e garante o cupom de desconto em um dos bares para consumir algo até o final da partida?
A espera na sua cadeira poderá ser preenchida com as ações no campo. Mas o tempo também pode ser ocupada respondendo o quiz do app do clube. Ou interagindo na rede social marcando o clube. Tudo isso gera pontos, assim como seus gastos do dia a dia na rede conveniada. Conforme metas atingidas, você pode trocá-los por descontos na loja ou na área de alimentação do estádio.
Hora do jogo. As estatísticas da partida são atualizadas minuto a minuto. Chegam à tela do celular patrocinadas por um parceiro do clube. Que paga para estar naquele espaço. Assim como aquele outro parceiro patrocinará os melhores momentos do primeiro tempo, que você poderá conferir no intervalo, em vídeo. A pipoca, aliás, acabou de sair, quentinha, avisa o app. Quem sabe não usa aquele cupom-prêmio por ter entrado cedo no estádio?
Fim de jogo. Seu time ganhou, gol do camisa 5. E isso, olha só, faz com que o chope aquele que você costuma tomar antes de sair do estádio esteja a R$ 5! O app mandou a mensagem no seu celular avisando. Você decide que, por hoje, já gastou o suficiente. Sem problemas. O app manda a mensagem indicando que o trânsito está carregado e será preciso paciência. A repercussão do jogo e as entrevistas estão rolando. Conecta na rádio e curte a vitória.
Fim de jornada. Você chegou em casa, depois de um dia de futebol. Em seu celular, apita a mensagem do clube: "Ganhamos, você foi fundamental na vitória de hoje. Confere aqui o vídeo que o autor do gol te enviou". Em tempo, se você quiser chamar aquela pizza de domingo à noite, ela entrou em promoção, 20% de desconto com o código "Gol do 5". É só pedir pelo app do clube.
É evidente que toda essa experiência dependerá do tamanho do bolso do fã. Tudo está atrelado ao tamanho do nosso mercado. Porém, as ofertas foram apresentadas. Nem todos aproveitarão os descontos, mas aqueles que o fizerem deixarão alguns bons trocados na conta do clube. No âmbito do estádio, a jornada do torcedor exigirá algo raro hoje em dias de casa cheia, uma internet rápida. Aliás, seu registro no wi-fi é mais uma chance de coleta de dados, que têm valor de ouro do mundo de negócios.
O ponto é que os clubes entrarão em uma nova era no relacionamento com os fãs. Hoje, os clubes não sabem quem entra em suas dependências nos dias de jogos. Na Arena e no Beira-Rio, a biometria existe, por exemplo, apenas nas áreas das organizadas. Em tempo, aquele hábito de emprestar a carteirinha de sócio não estará proibido.
O ponto é que, com reconhecimento facial, quem for no seu lugar terá de se registrar também. Aliás, isso permitirá que o clube coordene essa revenda do ingresso e, inclusive, estabeleça padrões de preços.
A obrigação de reconhecimento facial no acesso aos estádios, na largada, já tornará o estádio um lugar seguro. O que o deixará ainda mais atraente para o público que deseja apenas consumir o futebol. E, como consumidor, o público poderá ser tratado como cliente. E o cliente, você sabe, sem se sentir privilegiado, ele não volta.








.jpeg)




Comentários